Habilidades Essenciais da Liderança (II): a polidez
10/09/2019
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Ritos e Mitos Organizacionais

É preciso admitir que, ao galgar postos de chefia e comando, as pessoas não se tornam necessariamente mais sábias. Com frequência, observamos executivos que acreditando-se iluminados, se tornam prepotentes, megalomaníacos e senhores do bem e do mal – pensam que todos devem se curvar à sua vontade.

Conclusão óbvia: além de não garantir ou promover a saúde dos colaboradores e das organizações, a não escolha dos melhores “cérebros e corações” para o exercício da autoridade conduz ao enfraquecimento da capacidade de desempenho e ao embotamento das pessoas.

A incapacidade de conviver com o humano – por natureza, fluido, instável e imprevisível – faz com que os “senhores do poder” coisifique sua relação com o cargo que ocupam, considerando sua posição como propriedade particular. São gestores que também veem os subordinados como sua propriedade e, para perpetuar e legitimar essa dominação, condenam as pessoas ao idiotismo profissional, transformando-as em meros executores passivos da produção.

Não conseguem perceber que o homem se distingue de outras formas vivas justamente por suas características de autorreflexão e ação prospectiva. Pela autorreflexão, ele não apenas sabe, mas sabe que sabe e, assim, se propõe a atingir/manter as situações desejadas. Pela prospecção, contempla e administra sua vida não apenas em função do passado e do presente, mas principalmente do futuro. Criar um clima que propicie e facilite esse processo é o grande desafio das lideranças.

Em nome de uma aparente racionalidade e contrariando o que é próprio de sua natureza, o homem vê o seu trabalho decomposto em uma série de gestos simples e mecânicos, despojados de significado. Perde, assim, sua essência mais profunda – ser significante. Começa a se assemelhar aos gestos e ações mecânicos que repete diariamente, transformando-se em algo que não quer e não deseja.

O que muitos desses ”gestores” não conseguem ver é que grande parte do que se faz nas organizações é “ilógico e irracional”. A busca compulsiva pela racionalidade se insere na categoria dos ritos, que permitem aos seus executores a busca, manutenção e atualização das estruturas de autoridade, posicionando lado a lado – como num drama –, quem sabe e quem não sabe, quem tem e quem não tem, quem está em contato com os poderosos e quem está distante deles.

O mais paradoxal é que, como simples empregados sem cargos de comando ou poder, quase todos têm uma percepção extremamente crítica em relação ao que julgam ser o bom/mau desempenho dos gestores, “algozes” de sua felicidade e obstáculos à sua competência.

Essa relação neurótica, desgastada e desgastante, entre chefe e subordinado poderá ser interrompida quando nós, os mais lúcidos, formos promovidos a cargos com real poder? Provavelmente não, pois certamente iniciaremos um novo ciclo da relação neurótica – como gestores “sabidos” e “competentes”. Nossos subordinados (antes nossos pares, iguais e injustiçados como nós) serão os incompetentes e mal-intencionados, que precisam ser tutelados e controlados.

Na falta de novos modelos, ferramentas de ação que facilitem nossos comportamentos interativos, repetiremos tudo o que antes condenávamos. Por isso, as organizações devem investir pesadamente no fortalecimento e busca de modelos de ação de liderança que visem as pessoas.

O exercício e a experimentação de modelos de gestão que tenham como indicador a busca da potencialização global das pessoas (e não apenas modelos que visem a maximização dos lucros), trarão como beneficio a maximização da própria organização. Vale a pena investir e acreditar nos recursos humanos, pois todos sairão ganhando.

Para se desenvolver como líder, quem ocupa cargos de comando deve buscar a contribuição participativa dos trabalhadores. No entanto, não podemos perder de vista que, ao contrário do que normalmente nos fazem acreditar, uma “participação” por si mesma não gera motivação. Mas gera realismo, garantindo maior maturidade nas relações gestor/subordinado ou capital/trabalho.


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