“ARBEIT MACHT FREI”
10/09/2019
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Aspectos Gerenciais do Acidente do Trabalho “A SÍNDROME DO AVESTRUZ”

A tentativa de transferir para os padrões humanos, a lógica e o ritmo da mecanização e da automação industriais como modelos de ação comportamental é, historicamente, por demais conhecida por suas desastrosas conseqüências, tendo sido inclusive retratadas, com grande impacto, em filmes antológicos como Metrópolis de Fritz Lang e Tempos Modernos de Chaplin.

A tentativa de transferir para os padrões humanos, a lógica e o ritmo da mecanização e da automação industriais como modelos de ação comportamental é, historicamente, por demais conhecida por suas desastrosas conseqüências, tendo sido inclusive retratadas, com grande impacto, em filmes antológicos como Metrópolis de Fritz Lang e Tempos Modernos de Chaplin.

Esse modelo ainda prevalente na maioria absoluta das empresas pressupõe a imposição da lógica da máquina às condições de trabalho e vida do homem pela submissão do homem, no trabalho e na vida, ao ritmo exclusivo da máquina, hoje absolutamente sofisticada pela tecnologia eletrônica. Por isso, no contexto aqui circunscrito e para fins destas reflexões, há que se entender o conceito de máquina, não apenas como um artefato mecânico, um objeto, mas todo e qualquer processo sistemático e repetitivo de produção de bens e serviços, pois, apesar de todo o discurso modernizante ouvido nas organizações, o que se objetiva ainda hoje no início do terceiro milênio, inclusive pelos chamados programas de qualidade total (!?) é a quebra do ritmo humano – biológico, mental e cultural – pela sua sujeição, quase absoluta aos requisitos de regularidade típicos de processos industriais ( característica da máquina ).

Mesmo as “humanizadas” teorias, processos e técnicas de gestão de recursos humanos, que dizem buscar a compreensão do trabalho e de seus executantes enfatizam exageradamente os aspectos formais e mecanicistas da arquitetura desse trabalho, com as tradicionais descrições de rotinas, atividades ou tarefas  ( as famosas descrições de cargo ) ao considerar cada posto de trabalho como uma individualidade isolada, um aspecto segmentário da máquina, sem levar em conta os aspectos interativos e dinâmicos nele contidos.O antídoto moderno para essa situação tem sido o discurso exortativo do trabalho em equipe. Não basta no entanto que as empresas e seus representantes, o gerentes, falem que é preciso trabalhar em equipe sem se mudar a lógica de estruturação deste trabalho. Não há como se falar em trabalho em equipe sem que se estabeleça como ingrediente básico entre os atores sociais – empregados, patrões e gerentes – envolvidos nessa relação, a confiança. O grande equívoco desse modelo é pressupor que as pessoas vão se comportar como simples peças de uma engrenagem maior. Muito provavelmente, essa seja talvez uma das razões para a existência da diferença entre aquilo que se espera que as pessoas façam e o que efetivamente acontece.

Essa lógica mecanicista conduz as empresas, naturalmente, à elaboração de “naturais” pressupostos organizacionais para a atuação administrativa/gerencial no tratamento da segurança do trabalho, onde aqueles aspectos relacionados à real situação de trabalho, passam a não ser percebidos. Os modelos de gestão não conseguem captar e  registrar essas questões indesejáveis, porque registrá-las significará reconhecê-las, o que pode gerar, muitas vezes, grande incômodo pessoal aos responsáveis pelas áreas de segurança do trabalho nas empresas. É melhor não ver. É a “síndrome do avestruz”.

Mas, se estamos querendo realmente modificar o cenário em que se desenrola o trabalho, especialmente aquele trabalho onde os riscos à integridade física das pessoas que são seus agentes, são inerentes ao próprio trabalho, não podemos perder de perspectiva que o trabalho organizado (qualquer trabalho) é uma situação artificial, que cria condições artificiais de vida, instalando condições – microecologia – também artificiais, que facilitam e predispõem para o envolvimento das pessoas com os acidentes. O acidente é, pois, o preço que se tem pago pela artificialidade do trabalho.

Contudo, se a artificialidade é o atributo “natural” de qualquer trabalho, as empresas através de suas gerências deverão estar sempre atentas e preparadas para ao buscar a melhor performance, fazê-lo sem acidentes. Não é justo que se transfira aos empregados, simples executores de processos dos quais não são os autores, os custos psicológicos, sociais e econômicos das incertezas que estão incorporadas à natureza do trabalho.

Se trabalho com segurança é trabalho bem feito, não há como se desconsiderar, que a supervisão e a gerência fazem parte desse processo. Todo trabalho é realizado em um contexto técnico e administrativo que lhe dá sentido e significado seja econômico, social, político ou outro qualquer. Assim, quando ocorre um acidente ele é a parte visível de um sistema que tem embutido em si, imperfeições que tornam possível a mutilação e a morte de seres humanos.

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